E 2012 começa com novas versões de velhas histórias:
http://blogs.estadao.com.br/ponto-edu/pm-saca-arma-e-aponta-para-ocupante-de-predio-da-usp/

Na roda dos supostos  invasores, tinha pelo menos quatro estudantes, mas o policial escolheu exatamente o que estava mais longe e que por simples ironia do destino era negro e usava dreads.
Quando vi esse matéria só consegui pensar que dos filhos deste solo és mãe… Mas não tão  gentil  pátria amada Brasil.
E eles argumentam cheios de razão: “Se for bandido maloqueiro num importa a cor, tem que dar paulada mesmo”.
Engraçado…dados apontam que  a população carcerária é composta predominantemente por negros e pardos,mas isso com certeza é coincidência .
Falando em dados, com certa periodicidade surgem novas pesquisas com os mesmos resultados:
“em comparação aos brancos, negros têm permanecido menos anos na escola”;
“negras recebem as menores remunerações do mercado de trabalho”
E eles argumentam: “Eu não sou racista, mas esse resultado é porque negro é uma raça de gente preguiçosa…”
A  democracia racial no território nacional é tipo Papai Noel, todo mundo finge que acredita para manter a tradição. Ninguém aqui é branco, ninguém é preto. Todo mundo  é meio moreninho, assim a gente num precisa entrar em discussão porque quando eu entro numa loja demoro o dobro do tempo para ser atendida mesmo tendo o dobro de dinheiro do cidadão caucasiano ao lado.

Pacientemente explicamos que a maioria da população negra está nessas condições degradantes porque o Estado Brasileiro não tomou nenhuma providencia efetiva para a inclusão destes no período pós abolição.
Mas eles teimam em dizer: “É só trabalhar que consegue”.
Foram libertos sem educação, sem trabalho e com o estigma da escravidão estampado em suas testas.Foram para os guetos,foram para os sub empregos e como qualquer ser humano queriam gozar da liberdade recém adquirida.
Na melhor das hipóteses os avós e pais deram um duro danado, aprenderam a ética do trabalho, se inseriram no mercado e mantiveram seus pequenos na escola.
Nós, os netos e bisnetos crescemos em um Brasil com leis específicas para  nos proteger do preconceito racial.Vivemos em um país onde existem iniciativas que buscam incluir  afro descendentes nas universidades públicas,no Instituto Rio Branco e até mesmo nas novelas de televisão.
Com isso alguns de nós começam a acreditar.Os que tiveram oportunidade estudam,buscam bons empregos.Mas quem disse que uma lei mudaria instantaneamente a representação do negro?
Esse processo é lento, insuportavelmente lento .
Por hora  teremos que suportar e superar os tapas ,abusos e violência física.
Ainda seremos coagidos a alisar nossos cabelos: “você têm que se tornar  apresentável”.
Porque não satisfeitos com carregarmos o peso  de uma abolição incompleta , ainda criaram um padrão estético  que zomba de nossas bocas,de nossos narizes,de nossos cabelos,de nossas formas e de nossa cor.
Pensamos em compartilhar essas experiências…dizem  que botar as frustrações pra fora faz bem.Quando contamos para os nossos amigos,os nossos colegas,os nossos irmãos eles nos dizem:

-“Oh não,pare com isso!Você acha que  te chamaram de garçonete a noite toda só porque você é negra?Claro que não!” ;

-“Você sinceramente acha que tem alguma coisa a ver com você ser negra  o segurança da pizzaria ter chamado  a polícia dizendo que você estava portando uma doze quando na verdade você estava com um guarda chuva?Ai …será?”

-“A Psicóloga achou que você tem bolsa auxílio por fragilidade econômica porque ela num conhece essa outra bolsa de mérito acadêmico.Nem encane!”

Meu amigo, meu irmão guarde os panos quentes, porque o vulcão do preconceito lança suas terríveis lavas na nossa cara desde do dia que respiramos o primeiro fôlego de vida.

E agora , crucificaremos o policial?
Nos crucifiquemos todo juntos .
Ele é você que acha negros bem legais, desde que eles fiquem jogando futebol e fora das universidades públicas.
Ele é você que vê essa notícia,lê esse texto e pensa que é puro exagero.
Ele é você que ri das piadas raciais que depreciam e inferiorizam.
Ele é todos os negros e pardos que sofrem preconceito e fingem que não é com eles por vergonha de se expor.
Com essas atitudes todos nós de maneira material e simbólica  abafamos um grito que  deveria ser ensurdecedor: BASTA DE PRECONCEITO RACIAL.

Mas ô, ainda bem que no Brasil,não existe Racismo.
Se tivesse,aí sim estaríamos lascados.