Alguns dias atrás fui com a minha família assistir o filme “O preço do amanhã”.

No maior estilo “We only have 4 minutes to save the world “ Justin Timberlake  protagoniza ao lado de Amanda Seyfried  mais uma super produção hollywoodiana: muita gente bonita,muita ação com uma história água com açúcar.
Nada extraordinário. No entanto é interessante perceber que o filme abre espaço para algumas reflexões sobre o sistema capitalista e seus efeitos na estrutura  e nas práticas dos sujeitos.
A história brinca com a constante ânsia do ser humano de viver eternamente e ser para sempre jovem. Todo mundo tem cara de 25 anos.É o sonho de toda Donatella Versace : não há rugas,nem linhas de expressão,todo mundo tem corpão e é estiloso.
 A questão central do filme é uma metáfora com o  tempo. Os pobres têm pouco tempo. Eles trabalham muito por cotas diárias  que geralmente não ultrapassam  24 horas.Os preços dos bens e serviços  são inflacionados diariamente . No fuso (bairro) onde eles vivem a “miséria “- uma miséria bem hollywoodiana diga se de passagem – é tal que as pessoas se matam por  causa de horas, se prostituem para receberem minutos e existem gangues  que roubam anos.
O território ocupado pelos pobres é um gueto, é apartado, esquecido. Existem mortes todos os dias e elas são vistas como algo corriqueiro. Por ironia do destino  um homem que tinha 116 anos de crédito no seu relógio vai parar no fuso mais ferrado da trama e decide dar todo o seu tempo para o protagonista e se suicidar lá na perifa mesmo.
Com essa ocorrência os agentes do tempo ( poder coercitivo da película) aparecem no fuso do gueto e começam a investigar a curiosa “morte”.A partir daí a trama se desenrola.
Apesar da falta de profundidade do filme, gostei da atenção que foi dada para os hábitos dos sujeitos. Quando o protagonista finalmente consegue chegar no fuso dos ricos – um mix  de Centro Cívico  com Batel Soho –  a garçonete de um restaurante refinado  lhe pergunta:”Você não é daqui não é? “.Quando interrogada o porque de sua pergunta ela responde : “Voce é diferente das pessoas daqui.Você corre,ninguém aqui corre.Além disso você não tem um segurança e você está comendo muito rápido”.
É interessante   observar que esse comentário não se refere somente à etiqueta, ele está revelando também a maneira que este sujeito periférico significa o mundo. Quando muda de espaço ele percebe que existem novas regras para o jogo, mas como saber quais são elas?Ele pensa que elas são  exteriores e então melhora a roupa.
Com o comentário da garçonete ele percebe que o  que está em jogo ali vai além. É todo um conjunto de regras e práticas que ele pode até observar, mas precisará de muito tempo para internalizar. Ele precisa entender que uma pessoa que tenha muito tempo em seu relógio não necessita apressar a sua existência em nenhuma esfera da sua vida. Ela não corre, porque as regras do campo em que está inserido não são essas, na verdade correr nem é parte das possibilidades.
De maneira superficial já abordei essa questão das práticas em diferentes contextos urbanos  em uma resenha que fiz com um  colega (Click aqui para ler a resenha). Tanto no caso do filme quanto no caso do livro  é possível identificar um alto grau de disciplina dos corpos, dos sentimentos e das práticas dessas personagens. É um choro engolido, é uma corrida desvairada para dar tempo para a sobrevivência de sua mãe ,é a resignação imediata perante a morte.
Outra discussão que abordei na resenha e que também está presente no filme é a questão das fronteiras. Do fuso do gueto até o fuso onde as pessoas que têm muito tempo vivem (New Greenwich) existem fronteiras nas quais o indivíduo tem que deixar quantias razoáveis de tempo para atravessá-las. Numa viagem de poucas horas Justin gasta dois anos para chegar a New Greenwich.
O filme materializa essas fronteiras. O nosso herói tinha tempo e ultrapassou todas elas. No entanto é legal perceber que por vezes essas fronteiras são simbólicas. Ele passou a fronteira que o tempo podia comprar, mas acessar outros espaços mais refinados ele só conseguiu quando teve um desempenho excepcional na alta sociedade de New Greenwich.
Outra coisa que me chamou atenção foi essa materialização da máxima “tempo é dinheiro” conseguir operar uma mágica. Pessoas que estão pouco se ferrando para a periferia e as injustiças,dores e agruras que dela emanam,estão super na onda da trama  torcendo para o Justin Timberlake fazer uma  revolução – não sei se socialista porque a classe oprimida não toma consciência de sua condição,mas é quase isso! -. Os protagonistas agarram os lucros dos meios de produção e distribuem   para a galera.Em um piscar de olhos o sistema está em frangalhos e todos os descamisados  estão indo direto para New Greenwich usufruir de um bem estar nunca antes visto na história do filme.(Contei o final ,sorry!)
Pirações a parte, achei o filme interessante.Por brincar com a categoria tempo ilustra de forma cristalina algumas contradições do sistema capitalista.
Besitos,